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Igreja Mutante de Alvazete

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Apontamentos para uma história da Igreja Mutante *

Uwe Meinhoff

 

A redacção do postal que habitualmente é assinalado como o momento da fundação da Igreja Mutante foi realizada em Aquisgrã (Alemanha) o 1 de Dezembro de 1996, data que os seus membros consideram como o dia 1 do ano 1º da era Mutante.

 

Naquelas datas, alguns integrantes da Igreja viviam em Bélgica, enquanto alguns outros foram lhes fazer uma visita, o que originou uma breve viagem a Alemanha. É sabido que alguns outros integrantes da Igreja permaneceram então no país de origem, apenas para manter as raízes, receber o postal e assim estender a criação da Igreja no tempo e no espaço.

 

Pouco se sabe dessa viagem. Coincide no tempo com a Marcha Branca Belga contra a pederastia, ainda que daí não se pode concluir que tenha tido nada a ver uma coisa com a outra. É mais, o ponto 12º da carta fundacional refere-se incidentalmente a estes factos, mas não mais do que uma alusão considerada de pouca importância na exegese que desde a própria Igreja se faz da carta na Edição Comemorativa do começo do segundo ano mutante (texto de singular importância para o conhecimento das origens da Igreja, e ao que nos referiremos amplamente). Está também documentado que essa viagem incluiu também Colônia, e que a origem e final da peregrinação foi Bruxelas.

 

Perde-se na lenda a autoria do documento fundacional; documento se não revelado, sim certamente inspirado. Se acreditamos no recolhido na citada edição comemorativa, ali lemos:

 

          "Texto da autoria de Leviatã provisional (Escrivão
          d'El-Pollo) & Belial (Ordinário do Cone Sul), com a

          colaboração de Asmodeus (Ordinário de Cambre), e

          na presença da Ordinária de Barcelona e seu

          consorte".

 

É possível assinalar também a Baal (Ordinário de Elvinha) como o destinatário do texto, apesar de que as fontes destes dados sejam pouco precisas.

 

Pouco mais se conhece dos fundadores da Igreja. Ao facto de adoptarem novos nomes ao se integrarem na Igreja, une-se o facto de alternarem vários: assim por exemplo o Leviatã provisional é também, como se recolhe no texto anterior, o  Escrivão d'El-Pollo. Por outra parte, é habitual serem nomeados não apenas pelo seu nome -ou apelido- mas também pelo seu cargo: assim, "Ordinário" ou "Ordinária" poderia designar uma determinada hierarquia na organização mutante, ou quanto menos, um tratamento honorífico.

 

Seguindo em parte as achegas críticas da já citada edição, é possível assinalar outros dados que ajudam a situar os antecedentes da Igreja Mutante.

 

Aqui devemos distinguir entre os factos e aparentes revelações que levaram imediatamente à sua criação e alguns antecedentes organizativos. Os primeiros são difíceis não de conhecer, mas sim de interpretar: a Igreja reconheceu a sua  dívida com a TVE-Internacional, o Instituto Nacional de Meteorologia (aparentemente por referência ao dilúvio que profetizam) e às "tão respeitáveis quanto ridículas e pitorescas tradições hinduístas e marxistas-leninistas". Alusões  ao satanismo infantil, à síntese de determinadas hormonas humanas, ou à filmografia de Disney são ainda mais escuras.

 

Quanto aos antecedentes organizativos, entre eles podem-se assinalar duas organizações políticas ou político-militares ainda operantes (Soiuz e Gal), e uma organização anterior (Pikoleto) cuja manutenção não se está em condições de asseverar. Do que se pode tirar da já citada edição, os objectivos mínimos desta última organização consistiam na proclamação da R.D.S.N.P.G. a que faz referência o ponto oitavo da carta fundacional. Trata-se da República Democrática Socialista Nacional-Popular Galega; outros conceitos básicos desta organização parecem ter sido a autodeterminação com tomate, o secessionismo com alface, ou em geral o independentismo vegetal. Contudo, o facto de se mencionar na carta fundacional da Igreja à R.D.S.N.P.G. poderia indicar o terem assumido esse objectivo de Pikoleto.

 

Pouco podemos saber de Soiuz ou Gal. Em geral têm actuado por vezes junto com a Igreja Mutante (assim parece se deduzir de um dos poucos documentos gráficos existentes, um juízo mutante onde três pessoas com as faces ocultas parecem representar a esta organizações junto com a IMA).

 

Junto destas, pode-se mencionar a presumida existência de organizações menores também relacionadas, como a Fronte Cultural TMI (Tranquilos Maricones Intelectuales), a Rifundazione Terrorista (veja-se o ponto dois da carta fundacional), a Liga Contra a Sodomia (em aparente contradição com os ideais da IMA), o Partido Menárquico Interariano (Prostituição-Matrimónio-Incesto) etc. A importância concedida pelas distintas fontes a estas organizações é vária: desde partes essenciais do entramado mutante, até insignificantes organizações satélites de existência real questionável.

 

Da extensão geográfica da Igreja não se têm dados certos. Para além da relevância escatológica de Alvazete (que podemos tomar pela cidade espanhola de Albacete, na zona de origem, por certo, de Dom Quixote) mesmo no nome da Igreja, pouco se pode dizer, se bem a toponímia manejada é certamente ampla. Para além de Alvazete, outras zonas semelham ter importância: Aquisgrã, Colónia, Bruxelas, Galiza (lembre-se a RDSNPG), Las Palmas, Vaticano, Babilónia (e referências a outros lugares bíblicos), Vigo, Elvinha, Cambre, Barcelona, Cone Sul... Demasiados lugares como para tentar tirar conclusões, por quanto não semelha que a importância de todos eles seja análoga. Para além dos lugares míticos (os bíblicos), onde a Igreja não parece ter presença, adivinha-se um núcleo centro europeu (o lugar de fundação) e um núcleo mais extenso no sul oeste europeu, que é quiçá o lugar onde a influência e actividade da Igreja Mutante seja mais importante. Mas aqui as referências confundem-se entre a mitologia e a realidade: em Elvinha (perto da Corunha) teve lugar uma batalha durante as guerras napoleónicas, e Cambre (não longe de lá) saltou aos jornais por aqueles tempos pela permissividade dos seus costumes; ambas situam-se na Galiza, o que resulta de importância mais uma vez se lembramos o conceito de RDSNPG, ainda que bem se poderia objectar que se lhe está a conceder demasiada importância a um elemento quiçá secundário dentro da doutrina mutante. Por último, o Cone Sul aparece indistintamente como foco mutante ou como referência mítica: nada nas nossas fontes autoriza a afirmar a presença da Igreja em lugares tão afastados das suas origens, mas não é uma hipótese que se possa desbotar.

 

A referência constante a Albacete (como Albazete ou Alvazete) parece alimentar a hipótese de uma concentração Mutante nesse lugar situado no sul de Espanha, perto do Mediterrâneo. Contra disto, contra a centralidade de Albacete na actividade e na presença da Igreja Mutante (para além da sua importância simbólica) fala o facto da marginal (ainda que não nula) utilização do espanhol (idioma hegemónico em Albacete) pela Igreja Mutante. Neste sentido as incógnitas  crescem: por este caminho Portugal aparece com força na geografia mutante. Mas, a relativa pouca importância de Portugal no conhecido do imaginário mutante, não alimenta acaso a hipótese da conexão brasileira (cone sul)?

 

(...)

* Fragmento. Publicado originalmente em Cadernos de História das Religiões, vol. XXII, nº 3, Coimbra, 1998.


 




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